A APED promoveu, no dia 14 de setembro, uma mesa-redonda dedicada ao tema “Agricultura Sustentável”, no âmbito do Roteiro para a Descarbonização do setor da Distribuição. A iniciativa reuniu representantes da APED, da Direção-Geral de Agricultura e Desenvolvimento Rural, da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP), do Crédito Agrícola, da Rovensa Next Portugal, da Bel Portugal, da Terraprima e da PwC, com o objetivo de debater desafios, oportunidades e colaborações necessárias para acelerar a transição sustentável do setor agrícola.
A sessão foi aberta por Gonçalo Lobo Xavier, Diretor-Geral da APED, e contou com uma intervenção inicial de Cristina Câmara, Diretora de Sustentabilidade da APED, que enquadrou a iniciativa no âmbito do Roteiro para a Descarbonização do setor da Distribuição. Cristina Câmara destacou o papel estratégico dos produtos agrícolas na redução das emissões de âmbito 3 (emissões indiretas da cadeia de valor), sublinhando a importância da colaboração com fornecedores e do conhecimento da pegada de carbono dos produtos com maior peso na cadeia de valor.
Num debate centrado na ligação entre produção, distribuição e consumidores, Gonçalo Lobo Xavier sublinhou que a descarbonização só será possível com uma resposta articulada de toda a cadeia de valor e com o reconhecimento do papel do setor primário na sustentabilidade. “O setor primário tem um peso fundamental, tem de ser respeitado, valorizado e ter capacidade para investir.”, afirmou.
A competitividade da agricultura nacional esteve também no centro da discussão, com destaque para a necessidade de assegurar condições mais próximas das existentes em Espanha. “Quando perguntam se precisamos de apoios, defendemos que a prioridade deve ser o reforço da agricultura nacional, garantindo-lhe competitividade e condições que sejam, pelo menos, comparáveis às do nosso principal parceiro comercial, Espanha, onde o nível de apoio aos agricultores não tem paralelo”, acrescentou o Diretor-Geral da APED.
Ao longo da sessão, foram abordados temas como a adaptação às alterações climáticas, a gestão eficiente da água, a preservação do solo, a agricultura regenerativa, o desperdício alimentar, o financiamento e o papel das políticas públicas na transição para práticas agrícolas mais sustentáveis. Do ponto de vista dos produtores agrícolas, Luís Mira, Secretário-Geral da CAP, defendeu que a resposta à crise climática deve passar também por uma aposta mais clara na adaptação das culturas e das explorações, nomeadamente através de novas variedades, diferentes práticas de maneio e mudanças na orientação das culturas.
A importância de uma abordagem integrada à sustentabilidade, assente nas dimensões económica, social e ambiental da atividade agrícola, esteve igualmente em destaque. Na perspetiva de José Eduardo Reis, Diretor-Geral de Agricultura e Desenvolvimento Rural, a agricultura deve ser encarada como parte da solução para os desafios climáticos. Para tal, considerou essencial valorizar os agricultores e a sua formação, melhorar a gestão da água e dos solos, promover a inovação tecnológica, proteger os recursos naturais e apostar na produção de energia limpa, assegurando simultaneamente a rentabilidade das explorações e a coesão dos territórios rurais.
Na mesa-redonda, representantes de diferentes áreas partilharam perspetivas sobre os desafios da descarbonização, da adaptação às alterações climáticas e da transição para práticas agrícolas mais sustentáveis.
Sandra Candeias, Diretora de Serviços de Promoção da Atividade Agrícola da DGADR, reconheceu os desafios colocados pela intensificação dos fenómenos climáticos extremos, mas sublinhou a evolução registada no setor, em particular ao nível da consciência dos agricultores e da disponibilidade de novas ferramentas de apoio à decisão. “Não estamos totalmente preparados, mas estamos a adaptar-nos. Há ferramentas que nos permitem monitorizar, ter dados agroclimáticos e caminhar para uma agricultura que nos permite ter maior resiliência”, referiu.
Paula Amaral, Head of Sustainability da Bel Portugal, destacou que a transição para práticas agrícolas mais sustentáveis é um processo gradual, cujos impactos devem ser avaliados a médio e longo prazo. “Não existem soluções simples nem imediatas: é preciso começar a trabalhar e olhar para resultados que não surgem no curto prazo, mas a médio e longo prazo”, sublinhou.
João Pinto, Country Manager da Rovensa Next Portugal, realçou a qualidade e a modernização do setor agrícola nacional, destacando a adoção de tecnologias avançadas e o elevado nível das práticas implementadas no terreno. “Em Portugal, atualmente, faz-se do melhor que existe no mundo ao nível agrícola e utilizam-se tecnologias tão avançadas como em qualquer outra parte do mundo”, afirmou.
Por outro lado, Tiago Domingos, CEO da Terraprima, destacou a regeneração dos solos e a recuperação da matéria orgânica como respostas essenciais à degradação dos solos, sobretudo nos ecossistemas mediterrânicos, através de uma aposta na agricultura regenerativa e garantindo que é feita uma avaliação de cada solução com base nos seus resultados concretos. “A agricultura regenerativa é, no fundo, fazer o restauro ecológico dos nossos solos: recuperar a matéria orgânica que foi degradada por práticas inadequadas do passado”, explicou.
Já Filipa Saldanha, Diretora de Sustentabilidade do Crédito Agrícola, defendeu a criação de soluções financeiras diferenciadas que facilitem o investimento dos agricultores na transição para práticas mais sustentáveis. Destacou ainda o potencial do bank assurance no setor agrícola, através de uma maior articulação entre a banca e as seguradoras, de modo que os investimentos em medidas de adaptação e resiliência climática se traduzam em melhores condições de financiamento e em prémios de seguro mais favoráveis. “Temos de ser capazes de reduzir os custos de transição dos agricultores, e a maneira mais rápida e eficaz de o fazer é através do incentivo financeiro, nomeadamente de taxas de juro bonificadas”, afirmou.
No encerramento, a APED reiterou o compromisso em continuar a promover o diálogo entre os diferentes intervenientes da cadeia de valor e em dar maior visibilidade aos desafios dos operadores económicos no caminho da descarbonização.

